INVESTIGAÇÃO ESPECIAL SOBRE O FUNDO SOBERANO | MARICÁ

Fundo Soberano de Maricá: denúncia de R$ 1 bilhão no BTG Pactual, aproximação de Quaquá com André Esteves e conexões com Eduardo Paes ampliam questionamentos sobre dinheiro do petróleo

Declarações de vereadores na Câmara Municipal colocam o BTG Pactual no centro das suspeitas sobre a administração dos recursos do Fundo Soberano. Encontro do prefeito Washington Quaquá com o banqueiro André Esteves, participação de Guilherme Paes — irmão de Eduardo Paes — no banco e negócios da instituição com o Banco Master acrescentam novos elementos à apuração. Apesar das conexões identificadas, a suposta transferência bilionária ainda depende de comprovação documental.

Maricá (RJ), 21 de outubro de 2026 | Reportagem investigativa especial

O destino de bilhões de reais acumulados com royalties do petróleo em Maricá passou a ser questionado publicamente após vereadores denunciarem uma possível movimentação superior a R$ 1 bilhão para uma instituição financeira privada. O banco citado nominalmente durante a sessão da Câmara Municipal de 20 de outubro foi o BTG Pactual, uma das maiores instituições de investimento do país, ligada ao banqueiro André Esteves.

A denúncia surge em um contexto de aproximação institucional entre o prefeito Washington Quaquá e representantes do BTG, de propostas de mudanças nas regras dos fundos soberanos e de questionamentos sobre a transparência das aplicações financeiras.

Outro elemento é a presença de Guilherme Paes, irmão de Eduardo Paes, entre os principais sócios do BTG Pactual, segundo a reportagem de A Tribuna. A relação familiar, entretanto, não demonstra que Eduardo Paes tenha participado de qualquer decisão sobre recursos públicos de Maricá.

A investigação também identifica negócios realizados entre o BTG e o Banco Master, instituição que esteve no centro de um escândalo financeiro nacional e de investigações envolvendo o Banco de Brasília (BRB).

Vereadores questionam suposta transferência bilionária

Na sessão de terça-feira, 20 de outubro, o presidente da Câmara de Maricá, Aldair de Linda (PT), afirmou ter recebido informações sobre a possível transferência de mais de R$ 1 bilhão do Fundo Soberano para um banco privado em Brasília.

O parlamentar declarou que, caso a operação fosse confirmada, encaminharia o assunto ao Ministério Público Estadual.

Na mesma sessão, Netuno (PL) mencionou o BTG Pactual e questionou possíveis movimentações envolvendo a instituição.

Segundo reportagem publicada por Anderson Carvalho, no jornal A Tribuna, Netuno afirmou ter recebido informações sobre negociações financeiras que considerava preocupantes.

Aldair também questionou as prioridades orçamentárias do município, mencionando gastos com eventos, patrocínios e demandas sociais ainda não atendidas.

Essas manifestações são declarações parlamentares registradas pela imprensa, não conclusões de auditoria.

A Prefeitura e o BTG Pactual foram procurados por A Tribuna, mas não haviam respondido até a publicação de 20 de outubro.

O ponto central da denúncia permanece sem esclarecimento: qual instituição recebeu os recursos, qual o valor efetivamente movimentado e quais documentos autorizaram a operação?

Fonte: A Tribuna, reportagem de Anderson Carvalho, 20 de outubro de 2026.

A Tribuna RJ

Quaquá se reuniu com André Esteves para discutir investimentos em Maricá

A aproximação entre Washington Quaquá e André Esteves não se limita às declarações dos vereadores.

Em 13 de maio de 2026, o jornal O Dia publicou reportagem sobre um encontro dos dois em Nova York, durante evento promovido pelo Financial Times em parceria com a revista Veja.

A conversa envolveu a possibilidade de instalação de um data center ligado ao BTG Pactual em Maricá, dentro de uma estratégia de atração de investimentos e expansão econômica do município.

Também foram mencionados projetos energéticos associados à infraestrutura de gás e à possibilidade de instalação de uma usina termelétrica.

A reunião é um fato jornalisticamente relevante porque demonstra contato direto entre o prefeito e um dos principais representantes da instituição financeira posteriormente citada na denúncia parlamentar.

Entretanto, é necessário distinguir uma negociação para instalação de empreendimento privado de uma eventual aplicação de recursos públicos no banco.

O encontro, por si só, não comprova favorecimento, conflito de interesses ou transferência financeira.

O que precisa ser esclarecido é se houve alguma negociação paralela relacionada à administração do Fundo Soberano, quais representantes municipais participaram e se foram produzidos documentos ou propostas formais.

Fonte: O Dia, reportagem de Fabiano Medina, 13 de maio de 2026.

O Dia

Guilherme Paes: a conexão familiar com Eduardo Paes

A investigação também envolve uma relação que merece ser apresentada com precisão.

Guilherme da Costa Paes, irmão de Eduardo Paes, ocupa posição de destaque na estrutura executiva do BTG Pactual. O próprio banco o identifica como diretor executivo em suas informações oficiais de governança, com eleição registrada em 30 de abril de 2026.

O presidente do Conselho de Administração da instituição é André Esteves.

BTG Pactual

A reportagem de A Tribuna também descreve Guilherme Paes como um dos principais sócios do banco.

A Tribuna RJ

A ligação familiar com Eduardo Paes é relevante para identificar os personagens citados pelos vereadores, mas exige cautela jornalística.

Não foram identificados documentos que comprovem que Eduardo Paes tenha participado de negociações sobre o Fundo Soberano de Maricá, autorizado aplicações, intermediado operações ou recebido qualquer benefício relacionado aos recursos municipais.

Também não há comprovação de que a aproximação entre Quaquá e André Esteves tenha sido intermediada por Guilherme ou Eduardo Paes.

Assim, a conexão documentada é de natureza familiar e empresarial. Qualquer hipótese de influência sobre decisões administrativas precisaria ser sustentada por registros de reuniões, comunicações, contratos ou outros elementos verificáveis.

BTG Pactual também realizou negócios bilionários com o Banco Master

Uma descoberta relevante para compreender o histórico financeiro da instituição é que o BTG Pactual realizou operações com carteiras de crédito originadas pelo Banco Master, ligado a Daniel Vorcaro.

Em 15 de abril de 2026, o Metrópoles publicou investigação apontando que o BTG adquiriu aproximadamente R$ 1,15 bilhão em carteiras de crédito consignado do Credcesta, originadas pelo Master, em operações realizadas a partir de 2021.

Segundo a reportagem, uma aquisição inicial de R$ 303 milhões foi realizada diretamente pelo BTG. Posteriormente, um fundo foi utilizado para adquirir aproximadamente R$ 850 milhões em carteiras adicionais.

A publicação informou que parte dos direitos sobre esses créditos passou a enfrentar disputas judiciais após a liquidação do Banco Master.

O levantamento também apontou que as operações permitiram ao Master antecipar pelo menos R$ 1,66 bilhão mediante a negociação de carteiras.

Essas informações demonstram a existência de relações comerciais relevantes entre as instituições, mas não significam que o BTG tenha participado das fraudes atribuídas a dirigentes do Banco Master.

Tampouco comprovam que dinheiro do Fundo Soberano de Maricá tenha sido utilizado nessas operações.

Fonte: Metrópoles, coluna de Demétrio Vecchioli, 15 de abril de 2026.

Folha

Em outubro de 2026, a Folha também noticiou que André Esteves havia sido convocado a prestar depoimento como testemunha em investigação relacionada à atuação de agentes do Banco Central no caso Master. O depoimento foi adiado.

A condição de testemunha não significa que o banqueiro tenha sido acusado ou considerado responsável pelos crimes investigados.

C-Level

O histórico mostra que o BTG participou de operações e negociações relacionadas ao universo financeiro do Banco Master, mas não autoriza associar automaticamente a instituição às irregularidades apuradas contra outros agentes.

Banco Master tentou captar recursos em Maricá

O Banco Master também apareceu em uma frente de investigação diretamente relacionada ao município.

Reportagem do Metrópoles revelou mensagens de julho de 2024 nas quais Daniel Vorcaro perguntava a um intermediário sobre uma possível operação de captação de investimentos em Maricá.

O intermediário, identificado como Ricardo Siqueira Rodrigues, respondeu que continuava trabalhando para viabilizar a negociação.

Segundo o veículo, a operação não teve sucesso e Maricá não realizou aportes no Banco Master.

Metrópoles

Washington Quaquá declarou posteriormente que havia atuado para impedir a destinação de aproximadamente R$ 2 bilhões do Fundo Soberano à instituição.

O ex-prefeito Fabiano Horta, por sua vez, negou ter negociado aplicações no Master e afirmou que os recursos municipais eram mantidos em instituições financeiras públicas.

As versões devem ser confrontadas com documentos administrativos para esclarecer a existência, o estágio e os participantes das eventuais tratativas.

O episódio possui relação direta com a discussão atual porque envolve a tentativa relatada de atrair recursos do Fundo Soberano para uma instituição financeira privada.

Contudo, não demonstra que as supostas movimentações atualmente atribuídas ao BTG Pactual tenham ocorrido.

Lei municipal e mudanças na gestão dos recursos

A investigação documental identificou outra questão importante: a legislação dos fundos soberanos passou por mudanças significativas entre 2025 e 2026.

Em junho de 2025, a Lei Municipal nº 3.571 autorizou a criação da Maricá Global Invest S.A., sociedade de economia mista voltada à gestão de investimentos e participações.

Em outubro do mesmo ano, o Decreto nº 229 atribuiu à empresa a gestão plena do Fundo Soberano de Maricá, incluindo a execução de operações financeiras, a definição de estratégias de investimento e a contratação de serviços especializados.

O decreto também determina registro documental das operações, controles internos, auditorias e prestação de contas.

Portal de Legislação Municipal

+1

A existência dessa estrutura administrativa permite formular uma pergunta objetiva: se houve movimentação bilionária para o BTG Pactual, qual órgão aprovou a operação e quais registros foram produzidos pela Maricá Global Invest?

O decreto exige documentação das movimentações. Portanto, uma eventual operação dessa magnitude deve poder ser examinada por meio de extratos, autorizações, contratos e registros de auditoria.

Isso não significa que a Maricá Global Invest tenha realizado a operação denunciada. Significa que sua estrutura de governança é parte essencial da verificação.

Fundo Soberano da Educação: legislação exige instituição oficial

Outro ponto importante é a necessidade de distinguir o Fundo Soberano principal do Fundo Soberano da Educação.

A Lei Complementar nº 373/2022 estabelece que as receitas do Fundo da Educação sejam depositadas em conta específica mantida em instituição financeira oficial instalada em Maricá.

O mesmo dispositivo legal permite aplicações no mercado de capitais para ampliar as receitas do Fundo.

Portal de Legislação Municipal

Em setembro de 2026, o prefeito encaminhou à Câmara o Projeto de Lei Complementar nº 14/2026, por meio da Mensagem nº 39/2026, propondo permitir a administração de recursos também por instituições financeiras privadas autorizadas pelo Banco Central.

A justificativa apresentada pelo Executivo envolve diversificação das opções de investimento, rentabilidade e custos financeiros.

Maricá Info

O Fundo Soberano da Educação possuía patrimônio informado de R$ 1.383.615.352,60 em 30 de setembro de 2026.

Prefeitura de Maricá

É necessário esclarecer se a denúncia sobre o BTG Pactual envolve esse Fundo ou o Fundo Soberano principal, pois os regimes jurídicos são diferentes.

A proposta de alteração legislativa não comprova que uma transferência tenha ocorrido. Também não substitui a verificação da legislação vigente na data de qualquer operação.

Câmara rejeita convite para esclarecer aplicações

Em 20 de outubro, a Câmara Municipal rejeitou, por 11 votos contrários e cinco favoráveis, o requerimento apresentado pelo vereador Netuno para convidar o secretário Joab Santana a prestar esclarecimentos sobre o Fundo Soberano da Educação.

Conforme a relação nominal divulgada, votaram favoravelmente Adriana Costa, Aldair de Linda, Chiquinho, Netuno e Rita Rocha.

Foram apontados como contrários Chris Corrêa, Deil Machado, Felipe Paiva, Frank Costa, Igor Corrêa, Luciano Rangel Júnior, Marcinho da Construção, Marcus Bambam, Rony Peterson, Tatai e Thiago Fonseca.

A relação nominal ainda precisa ser confrontada com o registro oficial específico da votação.

Durante a sessão, vereadores contrários argumentaram que havia problemas na tramitação e nas assinaturas do requerimento. Também citaram uma audiência anterior sobre finanças.

A presidência explicou que outros nomes apareciam no sistema, mas somente Netuno havia assinado formalmente a solicitação.

A rejeição do convite não demonstra tentativa de ocultação de informações e não equivale a uma recusa pessoal do secretário. O episódio, contudo, integra o debate institucional sobre os mecanismos disponíveis para fiscalização dos fundos.

Maricá Info

Aplicação em banco privado: o que poderia ser irregular?

Não existe uma regra geral segundo a qual toda aplicação de recursos públicos intermediada por banco privado constitui crime.

A análise jurídica exige identificar o fundo de origem, a modalidade de investimento, a legislação vigente e as autorizações necessárias.

Se houver descumprimento de normas de depósito, limites de investimento ou procedimentos de aprovação, poderá existir irregularidade administrativa.

Para caracterização de crimes como peculato, corrupção ou fraude, entretanto, são necessários elementos específicos previstos na legislação penal.

A existência de relações empresariais ou familiares entre banqueiros e figuras políticas não demonstra, isoladamente, favorecimento ilícito.

Também não é possível concluir que a compra de carteiras de crédito do Banco Master pelo BTG Pactual represente participação nas fraudes investigadas em outras operações do sistema financeiro.

A investigação precisa separar fatos comprovados, alegações parlamentares e hipóteses ainda dependentes de documentação.

O que falta esclarecer sobre o BTG Pactual

A partir dos documentos e reportagens examinados, seis perguntas permanecem centrais.

Primeira: o BTG Pactual recebeu, administrou, intermediou ou manteve sob custódia recursos do Fundo Soberano de Maricá ou do Fundo Soberano da Educação em 2026?

Segunda: caso tenha existido operação, qual foi o valor, a data, o produto financeiro contratado e a instituição efetivamente responsável pelo risco?

Terceira: houve participação da Maricá Global Invest na seleção do banco, na autorização da operação ou na contratação de serviços financeiros?

Quarta: as conversas entre Washington Quaquá e André Esteves limitaram-se a projetos de infraestrutura e instalação de empreendimentos ou também envolveram a gestão dos fundos soberanos?

Quinta: Guilherme Paes ou qualquer outro executivo do BTG participou de reuniões, propostas ou contratos relacionados ao patrimônio dos fundos municipais? Há registros que indiquem participação de Eduardo Paes?

Sexta: os vereadores que apresentaram a denúncia possuem documentos capazes de demonstrar a movimentação superior a R$ 1 bilhão?

Essas perguntas podem ser respondidas por meio de extratos, contratos, atas de reuniões, políticas de investimento, pareceres técnicos e manifestações oficiais.

Conclusão: a denúncia envolve o BTG, mas o destino do dinheiro ainda precisa ser comprovado

A apuração confirma que o BTG Pactual foi citado nominalmente na denúncia apresentada pelo vereador Netuno em 20 de outubro.

Também confirma o encontro entre Washington Quaquá e André Esteves, a posição executiva de Guilherme Paes no banco e a existência de operações financeiras anteriores entre BTG Pactual e Banco Master.

Esses elementos são relevantes para uma investigação sobre governança, potenciais conflitos de interesses e transparência na administração de recursos públicos.

Entretanto, nenhum deles comprova que o Fundo Soberano de Maricá tenha transferido mais de R$ 1 bilhão ao BTG Pactual, que Eduardo Paes tenha participado de negociações financeiras municipais ou que tenha ocorrido corrupção ou desvio de recursos.

O patrimônio dos fundos soberanos pertence ao município e possui finalidades públicas específicas. Sua administração exige decisões documentadas, controles de risco e prestação de contas.

A questão central, portanto, permanece objetiva:

O BTG Pactual administra alguma parcela dos bilhões de reais dos fundos soberanos de Maricá? Se administra, quem autorizou, em quais condições e com quais garantias para o patrimônio público?

A resposta depende de documentos financeiros e manifestações institucionais que ainda não foram obtidos nesta apuração.

Fontes documentais e jornalísticas: A Tribuna, Anderson Carvalho, 20/10/2026; O Dia, Fabiano Medina, 13/05/2026; Metrópoles, reportagens de abril e junho de 2026 sobre BTG Pactual, Banco Master e Maricá; Folha de S.Paulo, março e outubro de 2026; CNN Brasil e SBT News, março de 2026; informações oficiais de governança do BTG Pactual; Lei Municipal nº 3.571/2025; Decreto Municipal nº 229/2025; Lei Complementar Municipal nº 373/2022; Prefeitura de Maricá; Maricá Info, setembro e outubro de 2026.

Nota editorial: Matéria elaborada a partir de pesquisa documental e publicações jornalísticas, sem entrevistas próprias. As alegações de transferência de recursos, eventuais conflitos de interesses e responsabilidades individuais permanecem sem comprovação suficiente. A reportagem não apresenta acusações criminais como fatos estabelecidos.

Deixe comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado. Os campos necessários são marcados com *.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

Follow by Email
Instagram
WhatsApp