Crise política em Maricá: relatos de ameaças de demissão acirram tensão às vésperas da eleição

Rompimentos entre aliados, mudanças de apoio e incerteza judicial sobre candidatura de Renato Machado marcam a disputa; documentos oficiais registram exonerações desde 2025

Por Redação RJ106 Notícias

Às vésperas das eleições de domingo, 4 de outubro, Maricá vive uma disputa marcada por rompimentos entre antigos aliados e relatos de possíveis pressões sobre trabalhadores. Informações encaminhadas à redação do RJ106 Notícias apontam cobranças por apoio eleitoral e receio de desligamentos após a votação, colocando empregos e fontes de renda de famílias no centro da preocupação.

Os relatos envolvem o grupo político do prefeito Washington Quaquá (PT), as candidaturas de sua ex-esposa, a deputada estadual Rosângela Zeidan, e de seu filho, Diego Quaquá, candidato a deputado federal, além das divergências com o ex-prefeito Fabiano Horta.

Publicações oficiais consultadas documentam exonerações em diferentes órgãos desde 2025. Esses atos comprovam os desligamentos dos cargos indicados, mas não demonstram, isoladamente, motivação eleitoral. As alegações de ameaça e retaliação política ainda precisam ser verificadas.

Mensagem atribuída a Quaquá faz referência à segunda-feira

Um dos registros recebidos pelo RJ106 é uma captura de tela de publicação em perfil identificado como sendo do prefeito Washington Quaquá, na interface do Facebook. A mensagem utiliza metáforas de guerra e lealdade:

“Na guerra, quem tá no muro leva tiro dos dois lados.”

Em seguida, o texto afirma que um soldado que não combate pode servir em outros exércitos, “menos no nosso”, e termina com a frase:

“Mas eu quero mesmo é ver o novo sol brilhar na segunda feira…”

No contexto das informações encaminhadas à redação, a publicação foi interpretada como uma cobrança de alinhamento político e uma possível sinalização de consequências após a eleição.

O conteúdo visível, entretanto, não menciona expressamente demissões, servidores ou uma ordem de desligamento. O print apresenta apenas a indicação relativa.

Também foi relatada à redação uma declaração anterior na qual Quaquá teria associado a permanência de pessoas em seus postos de trabalho ao apoio à candidatura de Diego, caso Diego não fosse eleito, ou não comprovassem apoio a Diego, que essas pessoas poderiam perder o emprego, sendo exonerados apartir de segunda feira dia 5.

Ruptura com Fabiano Horta expôs divisão no grupo governista

O afastamento entre Quaquá, Fabiano Horta e o vice-prefeito João Maurício de Freitas, o Joãozinho, tornou pública uma divisão entre lideranças que anteriormente atuavam no mesmo grupo. O rompimento foi registrado pela imprensa em abril de 2026, em meio a críticas do prefeito à gestão de seu antecessor, porém ha relatos que o rompimento já ocorreu entre outubro e novembro de 2024 mesmo, quando Fabiano negou a candidatura a governo do estado do RJ.

A disputa eleitoral ampliou as divergências: Horta e Diego Quaquá passaram a disputar uma vaga na Câmara dos Deputados. Notícias de fevereiro já relacionavam a tensão à pré-candidatura de Horta e ao apoio de Joãozinho ao ex-prefeito.

Segundo relatos recebidos pelo RJ106, pessoas identificadas como apoiadoras de Horta foram desligadas da Prefeitura e de suas terceirizadas, como nas OS que administram a saúde do município, desde o agravamento do conflito. A alegação de que esses afastamentos ocorreram por retaliação política permanece pendente de comprovação, mas sugerem que tais desligamentos, ocorreram por conta de divergência politica.

Há notícias de exonerações de mais de 20 comissionados do gabinete do vice-prefeito e de aproximadamente dez pessoas indicadas por Horta em fevereiro de 2026, só no Hospital Che Guevara, foram mais de 100 demissões. A vinculação dessas pessoas a determinado grupo político, contudo, não esclarece por si só os fundamentos de cada ato administrativo, mas sua maioria sim tem ligação com indicações a Fabiano Horta e seus aliados políticos.

Uma versão encaminhada à redação situa o início das divergências em outubro de 2024, quando Horta teria decidido não disputar o Governo do Estado em 2026. Essa explicação não foi confirmada. Naquele mês, os dois ainda participaram de uma entrevista coletiva conjunta para anunciar a transição de governo e projetos para Maricá.

Materiais associados a Bambam mostram diferentes apoios

As informações recebidas também mencionam um possível afastamento entre Quaquá, o vereador Aldair de Linda e seu filho, Allyson Elias, relacionado à distribuição de apoio na disputa pela Assembleia Legislativa. As circunstâncias desse alegado rompimento ainda precisam ser esclarecidas.

Uma articulação anterior entre Allyson e Diego foi divulgada pelo Eco Notícias RJ, que apresentou os dois como uma possível dobradinha eleitoral. A publicação documenta a aproximação naquele momento, sem comprovar o afastamento agora relatado.

As imagens encaminhadas ao RJ106 acrescentam um elemento à apuração. Um print de publicação de uma eleitora de Bambam, direcionada ao perfil de Marcus Bam Bam, anuncia apoio a Allyson para deputado estadual e a Diego para deputado federal. As fotografias exibem material com a inscrição “Vereador Marcus Bambam apoia”.

Outra peça apresenta a chamada “Bambam apoia e indica”, relacionando Zeidan para deputada estadual e mantendo Diego para deputado federal.

Os materiais mostram uma diferença no apoio divulgado para a disputa estadual. Os arquivos não esclarecem quando ou por qual motivo a alteração teria ocorrido.

Embora existam relatos de pressão sobre Bambam, as imagens não comprovam que o vereador tenha sido obrigado a mudar de apoio ou ameaçado em caso de recusa.

Candidatura de Renato Machado acrescenta incerteza ao cenário

A situação judicial do deputado estadual Renato Machado (PT) é outro fator na reorganização eleitoral. Em 8 de setembro, o TRE-RJ indeferiu seu registro de candidatura por unanimidade. Segundo comunicado oficial, o tribunal considerou indícios de suposto vínculo com organização criminosa, fundamentando a decisão no artigo 17 da Constituição Federal. O indeferimento do registro não equivale a uma condenação criminal.

Em 29 de setembro, o tribunal rejeitou um recurso do parlamentar e manteve o indeferimento. Entretanto, reportagem de O Dia publicada em 2 de outubro informa que a defesa recorreu ao TSE e que Renato segue na disputa. Sem a análise da decisão superior, não cabe apresentar sua exclusão como definitiva.

Segundo informações recebidas pela redação, a insegurança sobre a candidatura de Renato teria contribuído para que setores ligados a Quaquá concentrassem apoio em Zeidan. Essa explicação permanece como uma versão dos bastidores: não foram verificados elementos suficientes para afirmar que houve uma transferência coordenada de todo o grupo em consequência da decisão judicial.

Essa possível movimentação também deve ser distinguida da alteração de apoio associada a Bambam. Os materiais recebidos comparam Allyson e Zeidan; não demonstram que o vereador apoiava outro candidato a estadual.

Exonerações estão documentadas desde janeiro de 2025

A consulta a edições do Jornal Oficial de Maricá identificou exonerações coletivas e sucessivas séries de desligamentos de cargos comissionados.

O Decreto nº 4, publicado em 3 de janeiro de 2025, determinou exonerações gerais na administração direta e orientou os dirigentes da administração indireta a realizar o mesmo procedimento. O fundamento declarado foi a reestruturação administrativa no início do mandato. Na mesma edição, a Portaria nº 0068 apresentou uma relação nominal organizada por órgão.

Na Sanemar, a edição de 13 de janeiro reuniu uma extensa sequência de portarias individuais. Na Femar, três portarias publicadas em 17 de janeiro relacionaram 41 empregados em comissão exonerados, com efeitos entre os dias 9 e 13 daquele mês.

Outras edições registraram exonerações na Secretaria de Assistência Social e Cidadania e na Codemar, em junho de 2025, além de atos na Codemar e na Companhia Maricá Alimentos com efeitos em julho. Em fevereiro de 2026, o JOM Especial nº 364 publicou uma sequência de exonerações no Gabinete do Vice-Prefeito e na Secretaria de Saúde.

O levantamento não representa uma contagem completa de pessoas que deixaram definitivamente a administração. Há atos tornados sem efeito, remanejamentos e novas nomeações que precisam ser considerados. Também foram encontrados desligamentos na Câmara Municipal, de responsabilidade do Legislativo, que devem ser separados dos atos da Prefeitura.

Checagem não confirmou inelegibilidade atual de Quaquá

A situação eleitoral de Quaquá também exige distinguir decisões antigas de sua condição atual.

Uma decisão divulgada pelo TSE em 2013 registrou inelegibilidade por oito anos, contados a partir de 2012. Esse prazo, isoladamente, não demonstra impedimento vigente em 2026. Em 2024, o Ministério Público Eleitoral pediu a impugnação de sua candidatura à Prefeitura com fundamento em rejeição de contas, conforme notícia publicada à época. O pedido não comprova, por si só, a existência de uma restrição atual.

O risco para 2028: O Superior Tribunal de Justiça (STJ) manteve a condenação criminal a 3 anos e 2 meses de reclusão em regime aberto. Se houver o trânsito em julgado (esgotamento definitivo de recursos) ou uma decisão colegiada final confirmando crime contra a administração pública ou incolumidade pública, ele pode ficar impedido de se candidatar com base na Ficha Limpa.

Quaquá disputou e venceu a eleição municipal de 2024. A checagem realizada não confirmou uma inelegibilidade vigente, cuja conclusão exigiria a análise das decisões posteriores e dos efeitos de eventuais recursos.

A eleição de Zeidan e Diego pode ampliar a representação e a capacidade de articulação política do grupo nos Legislativos estadual e federal. Não há elementos suficientes, porém, para relacionar essas candidaturas a uma tentativa de contornar um suposto impedimento eleitoral do prefeito.

Empregos e liberdade de escolha no centro da preocupação

A questão mais sensível dos relatos é a possibilidade de trabalhadores estarem sendo constrangidos politicamente por receio de perder sua renda.

Pressões, intimidações e ameaças de demissão destinadas a influenciar o voto ou o apoio a candidatos estão entre as situações descritas como assédio eleitoral. A caracterização de um caso específico depende das provas e da avaliação das autoridades competentes.

No caso de Maricá, os atos oficiais documentam exonerações, enquanto os relatos apontam uma possível motivação política ainda não demonstrada. A apuração precisa estabelecer se houve relação entre cobranças eleitorais e consequências sobre vínculos de trabalho.

Eventuais desligamentos após a votação, inclusive na segunda-feira, 5 de outubro, poderão acrescentar elementos à verificação. Será necessário examinar as justificativas e confrontá-las com mensagens, declarações e depoimentos. A coincidência de datas, por si só, não comprova irregularidade.

Permanecem pendentes as versões dos envolvidos. A gravidade dos relatos exige rigor na apuração, especialmente quando estão em jogo empregos, renda familiar e liberdade de escolha política.

Nota da Redação — Maricá merece uma política justa, popular e comprometida com seus moradores. A disputa entre lideranças se torna lamentável quando projetos para a cidade perdem espaço para ataques pessoais e trabalhadores relatam medo de perder o emprego. Divergências fazem parte da democracia, mas precisam ser conduzidas com respeito e responsabilidade. A população merece propostas, diálogo e liberdade de escolha — e nenhuma família deveria temer por sua renda em razão de uma preferência política.

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