LEALDADE OU CONVENIÊNCIA? POLÍTICOS DE MARICÁ VIRAM AS COSTAS PARA ANTIGOS ALIADOS
Caso do vereador Felipe Paiva, que foi secretário no governo Fabiano Horta e votou contra homenagem ao ex-prefeito, levanta questionamentos sobre gratidão, coerência e interesses políticos.
A política de Maricá parece viver uma fase em que a lealdade tem prazo de validade e as alianças mudam conforme os ventos do poder. O que antes era apresentado como parceria, confiança e compromisso político hoje dá lugar a divergências, rompimentos e questionamentos sobre a verdadeira motivação de determinados posicionamentos.
Um episódio recente na Câmara Municipal de Maricá colocou essa discussão em evidência. Uma moção de congratulações e aplausos ao ex-prefeito Fabiano Horta foi rejeitada por 13 votos contrários e apenas três favoráveis.
Entre os parlamentares que votaram contra a homenagem estava o vereador Felipe Paiva, que ocupou o cargo de secretário municipal de Defesa do Consumidor, responsável pelas ações do Procon Maricá, durante a administração do próprio Fabiano Horta.
O caso chama a atenção porque Felipe Paiva fez parte da estrutura administrativa do governo anterior, ocupando uma posição de confiança e participando de iniciativas importantes da gestão.
Agora, diante de um novo cenário político, o vereador adotou um posicionamento contrário à homenagem ao ex-prefeito.
Mas o que realmente mudou? As convicções políticas, a avaliação sobre o antigo governo ou simplesmente a direção do poder?
Essa é uma pergunta que merece ser feita, não apenas ao vereador Felipe Paiva, mas a todos os representantes políticos que, ao longo dos anos, construíram suas trajetórias apoiados por determinadas lideranças e posteriormente passaram a se posicionar contra elas.
É evidente que nenhum político tem obrigação de concordar eternamente com um antigo aliado. A independência política é legítima e necessária. Entretanto, a população também tem o direito de cobrar coerência, transparência e explicações sobre mudanças de posicionamento.
Afinal, existe uma diferença entre romper por princípios e mudar de lado por conveniência.
A GRATIDÃO NÃO PODE SER ESQUECIDA NA PORTA DO PODER
Durante os oito anos em que esteve à frente da Prefeitura de Maricá, Fabiano Horta abriu espaço para diversas lideranças políticas, algumas das quais conquistaram projeção pública e fortaleceram suas carreiras dentro da estrutura municipal.
Hoje, com a mudança de governo e o novo cenário de disputas políticas, antigos aliados aparecem em posições diferentes.
O episódio envolvendo Felipe Paiva simboliza essa transformação e levanta uma reflexão: até que ponto a gratidão e o reconhecimento pela própria trajetória devem fazer parte da conduta de um representante público?
Reconhecer a participação em uma administração não significa concordar com todos os seus atos, muito menos ignorar eventuais irregularidades. Significa, porém, não apagar a própria história conforme as circunstâncias políticas se modificam.
MARICÁ PRECISA DE REPRESENTANTES, NÃO DE OPORTUNISTAS
A população de Maricá não pode aceitar que a política seja reduzida a uma disputa permanente por espaços, cargos e influência.
O eleitor precisa de vereadores que defendam suas posições com argumentos, independência e coragem, independentemente de quem esteja ocupando a cadeira de prefeito.
Quando um político muda de posicionamento, deve explicar claramente as razões dessa mudança. Essa prestação de contas é ainda mais importante quando ele participou diretamente do governo que agora critica.
A lealdade mais importante de um vereador deve ser com a população, e não com qualquer liderança política. Mas essa lealdade também exige coerência, memória e respeito à própria trajetória.
O POVO ESTÁ OBSERVANDO
O episódio da homenagem rejeitada a Fabiano Horta poderá ser lembrado como mais um capítulo das disputas políticas de Maricá. Entretanto, seu significado vai além de uma simples votação.
Ele coloca em discussão a credibilidade dos representantes públicos e a facilidade com que antigas alianças podem se transformar em confrontos.
Felipe Paiva e os demais vereadores têm todo o direito de tomar decisões independentes. Da mesma forma, a sociedade tem o direito de questionar, avaliar e cobrar explicações.
Porque, no final das contas, o eleitor não deve julgar apenas o discurso de hoje, mas também a trajetória de ontem.
Na política, mudar de opinião pode ser sinal de amadurecimento. Mas mudar de lado sem explicar os motivos sempre deixará dúvidas sobre a verdadeira razão da mudança.
E fica uma pergunta para a reflexão dos moradores de Maricá:
Se alguns políticos parecem esquecer tão rapidamente os aliados que lhes abriram portas, que garantias o cidadão tem de que não serão igualmente esquecidos os compromissos assumidos durante a campanha eleitoral?
O tempo passa, o poder muda de mãos, mas a memória política da população precisa permanecer viva.
