Investigado antes de assumir: virada eleitoral coloca Douglas Ruas a caminho do governo do RJ antes do Segundo Turno
Votos de Garotinho são anulados, Paes promete recorrer e candidato do PL se aproxima do Palácio Guanabara sob investigação por suspeitas de crimes licitatórios, peculato e lavagem de dinheiro.
O Rio de Janeiro pode ter seu próximo governador definido sem segundo turno — e com uma investigação criminal envolvendo o provável vencedor antes mesmo da posse. A decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) de anular os votos de Anthony Garotinho (Republicanos), nesta quinta-feira (8), abriu caminho para a vitória de Douglas Ruas (PL) na primeira etapa da eleição.
A reviravolta colocou Eduardo Paes (PSD) diante de uma batalha judicial para tentar manter o segundo turno. Para Ruas, a perspectiva de assumir o estado vem acompanhada de questionamentos sobre empresas, crescimento patrimonial e contratos públicos.
Ruas é investigado por suspeitas de crimes, mas não há, nas informações consultadas para esta reportagem, comprovação de culpa ou condenação referente a essa apuração. O político nega irregularidades.
Garotinho fora da conta e segundo turno ameaçado
Na apuração de domingo (4), Douglas Ruas terminou com 49,27% dos votos, enquanto Eduardo Paes alcançou 42,76%. Garotinho recebeu 3,17%, mas disputou a eleição com a candidatura sub judice, aguardando julgamento de recurso.
Por cinco votos a dois, o TSE decidiu anular os votos do ex-governador. Com a exclusão, o percentual de Ruas passa a aproximadamente 50,88% dos votos válidos, ultrapassando a maioria necessária para vencer no primeiro turno.
Não houve transferência dos votos de Garotinho para o candidato do PL. A mudança ocorre porque a retirada desses votos reduz o total usado no cálculo dos percentuais.
A retotalização está prevista para sábado (10). A proclamação oficial de Ruas como governador eleito depende desse procedimento no Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro (TRE-RJ).
Paes anunciou que recorrerá ao Supremo Tribunal Federal (STF) para tentar garantir uma nova votação. Até eventual mudança judicial, permanece o encaminhamento determinado pelo TSE.
Antes da posse, investigação já acompanha Ruas
A possível chegada de Douglas Ruas ao Palácio Guanabara ocorre enquanto o Ministério Público do Rio de Janeiro apura suspeitas de crimes licitatórios, peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Segundo reportagens que divulgaram o procedimento, a investigação começou após uma denúncia apontar possíveis conflitos de interesses e enriquecimento ilícito. Entre os pontos examinados está o crescimento patrimonial e financeiro de duas empresas ligadas ao político: Saur Construção, Terraplanagem e Locação e DM Invest Consultoria e Participações.
O caso tramita sob sigilo, conforme as informações publicadas pela imprensa. Isso limita o conhecimento público sobre o conjunto de provas, diligências e manifestações constantes do procedimento.
Negócios milionários e contratos sob escrutínio
As informações divulgadas apontam movimentações envolvendo escrituras imobiliárias da Saur que somam R$ 12,23 milhões entre janeiro de 2023 e maio de 2025.
Também foi relatada a inclusão, na investigação, de uma auditoria sobre contratos de R$ 702 milhões firmados durante a passagem de Ruas pela Secretaria Estadual das Cidades, na gestão de Cláudio Castro.
Os valores correspondem a negócios e contratos examinados. Não representam um montante comprovadamente desviado nem demonstram, isoladamente, a ocorrência de crime.
Outro dado precisa ser considerado: consultada pelo Ministério Público, a Procuradoria-Geral do Estado informou não ter localizado repasses do governo fluminense à Saur e à DM Invest.
Ruas nega acusações e diz acreditar no arquivamento
Ao comentar a investigação após o debate da TV Globo, Ruas afirmou que as acusações são falsas, declarou estar disponível para prestar esclarecimentos e disse acreditar que o procedimento será arquivado.
A expectativa apresentada pelo político, contudo, não equivale a uma decisão de arquivamento das autoridades responsáveis.
Para quem se aproxima do comando do estado, a cobrança por esclarecimentos ganha dimensão ainda maior. A população tem interesse em conhecer a atuação de seus governantes, a aplicação dos recursos públicos e o desfecho das suspeitas investigadas, com respeito ao direito de defesa.
Vitória nas urnas não encerra os questionamentos
O cenário reúne três personagens em posições decisivas: Garotinho, cujos votos foram anulados; Paes, que tenta preservar o segundo turno; e Ruas, que se aproxima do governo enquanto enfrenta uma investigação.
A confirmação da vitória poderá encerrar a disputa eleitoral, mas não encerra automaticamente a apuração sobre empresas, patrimônio e contratos.
O provável futuro governador terá pela frente uma cobrança que ultrapassa a celebração do resultado: apresentar respostas sobre os fatos investigados. Para um estado marcado por sucessivas crises políticas, transparência e fiscalização precisam acompanhar o novo governo desde o primeiro dia.
