CHAMOU ELEITOR DE “BURRO” E FICOU PARA TRÁS: NEM O APOIO DE QUAQUÁ FEZ PAES SUPERAR DOUGLAS RUAS EM MARICÁ
Resultado apresentado na cidade coloca Douglas Ruas à frente de Eduardo Paes; ataques internos e denúncias de pressão política levantam dúvidas sobre a condução da campanha governista, crise em Maricá expõe desgaste da base de Lula
A declaração de Eduardo Paes (PSD) de que o maricaense que não votasse nele seria “burro” merece uma crítica direta: nenhum candidato tem o direito de tratar a escolha do eleitor como uma demonstração de inferioridade. A frase, registrada pela imprensa durante um comício em Maricá em setembro, representa uma abordagem incompatível com o respeito que deve orientar uma campanha democrática.
O episódio ganha outro significado diante dos números exibidos na captura de tela enviada à reportagem, identificada como sendo do sistema de resultados do TSE. Naquele registro, Douglas Ruas (PL) aparece com 63.771 votos, equivalentes a 49,69%, enquanto Paes soma 52.690 votos, ou 41,06%, em Maricá.
A diferença apresentada é de 11.081 votos e 8,63 pontos percentuais. Os números correspondem ao momento retratado na imagem, sem confirmação independente nesta apuração sobre eventuais atualizações posteriores.
Politicamente, o contraste é evidente: o apoio do grupo que governa a cidade não garantiu a liderança de Paes no resultado mostrado. O eleitorado demonstrou autonomia — justamente o que a declaração ofensiva do candidato desconsidera.
O eleitor não deve obediência a quem governa
Mesmo que apresentada em tom de brincadeira ou empolgação de palanque, a frase de Paes transforma o pedido de voto em desqualificação de quem discorda.
A cidade merece propostas concretas para segurança, transporte, saúde e infraestrutura. Chamar o eleitor de “burro” desloca o debate dessas necessidades e alimenta a percepção de arrogância. Uma aliança com o prefeito não dá ao candidato qualquer direito sobre os votos dos moradores.
Quaquá escolheu confrontar a própria base
O desgaste também passa pela atuação do prefeito Washington Quaquá (PT). Na véspera do primeiro turno, ele publicou uma manifestação em que defendeu “limpar a máquina” e afirmou que quem tivesse “pulado do barco” deveria fazê-lo. Na mesma fala, apresentou a reorganização do governo e seus projetos como prioridades, em meio à disputa entre antigos aliados.
Segundo a reportagem que registrou a manifestação, o prefeito justificou os conflitos pela necessidade de enfrentar práticas antigas, cortar despesas e afastar pessoas que estariam prejudicando a administração. Essas acusações precisam ser demonstradas por fatos, com identificação das irregularidades e respeito ao direito de defesa.
Na avaliação editorial do RJ106, transformar divergências entre aliados em uma disputa pública por lealdade prejudica a construção de uma campanha coletiva. Uma liderança que pede unidade para Lula e Paes também deve responder pelo ambiente político que ajuda a produzir.
Denúncias de pressão eleitoral exigem esclarecimentos
Os relatos apresentados à reportagem sobre trabalhadores pressionados ou desligados por apoiar outros candidatos são graves e precisam ser apurados. Se houver vínculo entre ameaça profissional e exigência de apoio político, a situação ultrapassa uma simples divergência partidária.
O Ministério Público do Trabalho explica que ameaças de demissão, perda de função, cobrança sobre o voto e uso da dependência econômica para induzir escolhas políticas podem configurar assédio eleitoral.
A existência de uma exoneração, é necessário verificar mensagens, testemunhos, justificativas administrativas e a relação entre os desligamentos e as escolhas políticas dos atingidos.
Isso não diminui a necessidade de esclarecimento. O sustento de uma família não pode ser usado como instrumento de fidelidade eleitoral.
PT Maricá precisa explicar o tratamento aos seus candidatos
Outro ponto de contestação é a comunicação do diretório municipal. Segundo o relato encaminhado à reportagem, o perfil do PT Maricá teria parabenizado apenas Zeidan e Diego Quaquá, deixando outros candidatos petistas sem reconhecimento equivalente.
A alegação merece uma explicação pública: os canais institucionais devem representar o partido e sua diversidade, sem se confundir com a comunicação de um único grupo.
A Lei dos Partidos Políticos estabelece igualdade de direitos e deveres entre filiados. Essa conclusão exige examinar as regras aplicáveis, as decisões partidárias e o conjunto das condutas.
A crítica política permanece: reconhecer seletivamente integrantes do mesmo partido pode aprofundar ressentimentos e enfraquecer a militância que deveria atuar em torno de objetivos comuns.
A briga pode ter prejudicado Lula e Paes?
A hipótese merece discussão.
Ataques entre aliados, suspeitas de retaliação e tratamento desigual podem desmobilizar apoiadores e dificultar a campanha. Em Maricá, essa possibilidade ganha relevância diante da vantagem de Ruas sobre Paes exibida no registro enviado.
O que cabe cobrar das lideranças é responsabilidade política. Quem pretende fortalecer uma candidatura precisa convencer os eleitores, respeitar trabalhadores e agregar militantes. Ofensas e disputas por lealdade podem produzir justamente o efeito contrário.
Maricá merece uma política em que discordar não signifique ser insultado, perder espaço partidário ou temer pelo emprego. A direção local do PT e o prefeito precisam explicar suas escolhas; Eduardo Paes precisa reconhecer que o respeito ao eleitor vale também quando o voto não vem.
