Quaquá fala em cortar gastos, mas Maricá fecha contrato de R$ 45 milhões com a LIESA
Enquanto o governo municipal promove exonerações e defende redução de despesas, contrato publicado no Diário Oficial prevê R$ 45 milhões para direitos relacionados ao Rio Carnaval 2027.
MARICÁ — Em meio ao discurso de corte de gastos, redução de contratos e reorganização da máquina pública, uma contratação milionária publicada no Diário Oficial de Maricá chama atenção e levanta questionamentos sobre as prioridades da administração municipal.
A Companhia de Cultura e Turismo de Maricá (MARÉ) firmou contrato no valor de R$ 45 milhões com a Liga Independente das Escolas de Samba do Rio de Janeiro (LIESA).
A contratação consta na edição nº 138 do Diário Oficial de Maricá, publicada em 7 de outubro de 2026, e está vinculada ao Processo Administrativo nº 14.816/2026.
O contrato foi realizado por inexigibilidade de licitação e envolve direitos relacionados ao Rio Carnaval 2027.
R$ 45 milhões em meio ao discurso de economia
O valor ganha ainda mais repercussão pelo momento vivido pela administração municipal.
O prefeito Washington Quaquá vem defendendo publicamente medidas de redução de despesas e chegou a anunciar corte de 30% nos contratos das secretarias, dentro de uma estratégia apresentada pelo governo para diminuir gastos e ampliar a capacidade de investimento do município.
Ao mesmo tempo, o município vem registrando uma sequência de exonerações e mudanças na estrutura administrativa.
É justamente nesse cenário que surge uma contratação de R$ 45 milhões relacionada à LIESA e ao Carnaval carioca.
Se a Prefeitura afirma que precisa cortar gastos, qual é a justificativa para um contrato de R$ 45 milhões relacionado ao Rio Carnaval?
O que Maricá está comprando por R$ 45 milhões?
É importante esclarecer que o documento oficial não caracteriza os R$ 45 milhões como uma simples doação ou entrega de dinheiro à LIESA.
Existe uma contratação com contrapartidas.
Segundo o extrato publicado no Diário Oficial, o acordo envolve a obtenção onerosa de direitos relacionados ao Rio Carnaval 2027, abrangendo conteúdos audiovisuais, transmissão, distribuição internacional, arquivo, marca, monetização, sublicenciamento, promoção e hospitalidade, entre outras prerrogativas.
O Contrato nº 121/2026 estabelece prazo de 48 meses, observados os períodos específicos dos direitos previstos no acordo.
A pergunta é: qual será o retorno para Maricá?
A existência de direitos e contrapartidas, entretanto, não encerra a discussão sobre o valor da contratação.
Pelo contrário.
Quando estão em jogo R$ 45 milhões, é legítimo que a população queira saber quais benefícios econômicos, turísticos e institucionais o município espera receber.
- Quanto desse investimento poderá retornar aos cofres da empresa municipal?
- Quanto poderá ser arrecadado com publicidade, monetização, transmissão ou sublicenciamento?
- Quais metas de audiência e exposição da marca Maricá foram estabelecidas?
- Existe estimativa de retorno financeiro?
- Qual estudo técnico ou econômico fundamentou o valor de R$ 45 milhões?
Essas informações são fundamentais para que o contribuinte consiga avaliar se o negócio representa uma aplicação vantajosa dos recursos públicos.
Exonerações aumentam o contraste
O contrato também chama atenção porque foi publicado em um período marcado por exonerações na administração municipal.
A edição anterior do Diário Oficial trouxe uma extensa relação de atos envolvendo cargos públicos.
É preciso fazer uma ressalva: uma exoneração não significa necessariamente demissão definitiva do serviço público, já que determinados casos podem envolver mudança de função, exoneração seguida de nova nomeação ou reorganização administrativa.
Ainda assim, o cenário reforça o contraste entre a política anunciada de contenção de despesas e uma contratação de R$ 45 milhões.
Carnaval pode gerar retorno, mas números precisam ser apresentados
Maricá possui interesses relacionados ao Carnaval carioca.
A União de Maricá, campeã da Série Ouro de 2026, fará sua estreia no Grupo Especial em 2027. Além disso, a MARÉ participa de iniciativas ligadas à divulgação e transmissão do carnaval.
Investimentos em turismo, cultura, comunicação e exposição institucional podem produzir retorno econômico para uma cidade.
A questão, portanto, não precisa ser reduzida a ser contra ou a favor do Carnaval.
O ponto central é saber se R$ 45 milhões representam um investimento proporcional ao benefício que Maricá receberá.
Corte de gastos de um lado, R$ 45 milhões do outro
O próprio governo municipal vem defendendo a necessidade de rever despesas e contratos.
Por isso, a contratação com a LIESA merece ser analisada justamente à luz desse discurso.
Se o objetivo declarado é economizar recursos públicos e estabelecer prioridades, cabe à administração explicar de maneira transparente por que um contrato dessa magnitude foi considerado estratégico para o município.
Também será importante divulgar indicadores que permitam, futuramente, comparar o dinheiro investido com os resultados efetivamente alcançados.
Transparência sobre os R$ 45 milhões
Até aqui, a publicação do contrato não significa, por si só, que exista irregularidade.
A questão levantada é de prioridade, economicidade, transparência e retorno do investimento público.
Em um momento de exonerações, reorganização administrativa e discurso de redução de despesas, um contrato de R$ 45 milhões naturalmente desperta atenção.
Agora, a população precisa conhecer não apenas aquilo que Maricá está pagando, mas principalmente o que Maricá receberá em troca e qual será o retorno concreto desse investimento.
Se é hora de cortar gastos, por que R$ 45 milhões para os direitos relacionados à LIESA e ao Rio Carnaval 2027 — e qual será o retorno desse dinheiro para Maricá?
Fonte: Diário Oficial de Maricá — Edição nº 138, de 7 de outubro de 2026; Processo Administrativo nº 14.816/2026; Contrato nº 121/2026.
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