Debate da Globo esquenta reta final da eleição para o Governo do RJ com ataques, corrupção, segurança e disputa entre Paes e Ruas

A cinco dias do primeiro turno, candidatos ao Palácio Guanabara protagonizam embates sobre alianças políticas, segurança pública, transporte, educação, saneamento e desenvolvimento regional; Eduardo Paes e Douglas Ruas concentram boa parte das críticas
RIO DE JANEIRO — O debate promovido pela TV Globo na noite desta terça-feira (29) colocou frente a frente cinco candidatos ao Governo do Estado do Rio de Janeiro e elevou a temperatura da campanha na reta final para o primeiro turno das eleições de 2026.
Participaram Eduardo Paes (PSD), Douglas Ruas (PL), Anthony Garotinho (Republicanos), William Siri (PSOL) e André Marinho (Novo). O encontro foi mediado pela jornalista Ana Paula Araújo e realizado nos Estúdios Globo, no Rio de Janeiro.
A poucos dias da votação de domingo, 4 de outubro, o debate foi marcado por cobranças sobre administrações anteriores, acusações de corrupção, discussões sobre a influência do crime organizado no estado e confrontos envolvendo as alianças políticas dos candidatos.
Embora temas como saúde, educação, transporte, emprego, saneamento e desenvolvimento do interior tenham ocupado espaço na programação, foram os ataques políticos que produziram alguns dos momentos mais tensos da noite.
Paes e Ruas no centro da disputa
Eduardo Paes e Douglas Ruas, dois dos principais nomes da disputa eleitoral, concentraram grande parte das críticas.
Logo no início, Ruas questionou Paes sobre transporte público e antigas promessas relacionadas à Linha 3 do metrô, projeto historicamente reivindicado por moradores de São Gonçalo e de outros municípios da Região Metropolitana.
Paes respondeu destacando investimentos realizados durante sua passagem pela Prefeitura do Rio, citando intervenções no sistema BRT e terminais de transporte.
O confronto, porém, rapidamente deixou o campo administrativo e entrou no terreno político.
Paes passou a associar Ruas ao grupo do ex-governador Cláudio Castro e também mencionou Rodrigo Bacellar. Ruas reconheceu que manteve relação de trabalho com integrantes do governo estadual, mas reagiu tentando relacionar Paes aos mesmos personagens da política fluminense.
A ligação dos candidatos com figuras nacionais também apareceu diversas vezes. Ruas procurou reforçar sua proximidade política com Flávio Bolsonaro, enquanto adversários cobraram de Paes maior clareza sobre sua relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O resultado foi um debate dentro do debate: além da escolha do próximo governador, os candidatos tentaram convencer o eleitor sobre quem representa continuidade e quem representa mudança no cenário político do estado.
Corrupção ganha espaço
Outro assunto que atravessou diferentes blocos foi a corrupção.
Anthony Garotinho direcionou parte de suas intervenções para denúncias e investigações envolvendo integrantes da política estadual. Em um dos confrontos, questionou André Marinho sobre a dívida pública e relacionou os problemas financeiros do Rio de Janeiro à corrupção e ao desperdício de recursos.
Marinho respondeu com críticas contundentes à classe política tradicional e também atacou a trajetória de Garotinho.
A troca de acusações demonstrou que o histórico recente do Rio — marcado por investigações, prisões e escândalos envolvendo diferentes administrações — continua ocupando posição central no discurso eleitoral.
William Siri também relacionou corrupção, crime organizado e ocupação de espaços institucionais, defendendo uma ruptura com grupos que, segundo ele, dominaram estruturas políticas do estado.
Segurança pública domina momentos de tensão
Como era esperado em uma eleição fluminense, a segurança pública esteve entre os temas mais sensíveis.
Os candidatos discutiram o domínio territorial exercido por facções criminosas e milícias, a necessidade de integração das forças policiais, inteligência e presença do Estado em comunidades.
Garotinho apresentou a proposta de criação de uma espécie de “Bope 2.0”, que teria atuação voltada para retomada territorial, combinando operações policiais, investigação e presença de políticas públicas.
André Marinho defendeu maior integração das forças de segurança e um Centro Integrado de Comando e Controle reunindo diferentes órgãos.
Siri, por sua vez, associou o crescimento das organizações criminosas à corrupção e à fragilidade das instituições estaduais.
As divergências deixaram evidente uma das grandes questões que o próximo governador enfrentará: como recuperar territórios controlados pelo crime sem limitar a política de segurança apenas a operações policiais.
Violência contra a mulher provoca confronto
Douglas Ruas também questionou Eduardo Paes sobre políticas de combate à violência contra a mulher.
Paes defendeu a ampliação da Patrulha Maria da Penha e propôs a criação de oito delegacias especializadas de atendimento à mulher funcionando 24 horas.
Ruas contestou o adversário e trouxe para o debate episódios envolvendo aliados políticos de Paes.
A discussão rapidamente ganhou contornos eleitorais e passou das propostas para ataques envolvendo integrantes dos grupos políticos adversários.
Educação: escolas cívico-militares entram em pauta
Na área da educação, André Marinho questionou Douglas Ruas sobre o desempenho da rede estadual.
Ruas reconheceu a necessidade de melhorar os indicadores educacionais e defendeu, entre outras iniciativas, o modelo de escolas cívico-militares.
Segundo sua argumentação, militares da reserva poderiam atuar na disciplina e organização das unidades, enquanto os professores permaneceriam responsáveis pelo conteúdo pedagógico.
Outros candidatos defenderam valorização dos profissionais da educação, expansão do ensino profissionalizante e maior integração entre formação escolar e mercado de trabalho.
Paes apresentou como uma de suas propostas a ampliação do ensino profissionalizante em tempo integral.
Escala 6×1 coloca Siri e Ruas frente a frente
William Siri e Douglas Ruas protagonizaram outro confronto ao discutirem a escala de trabalho 6×1.
Siri cobrou uma posição do candidato do PL e relacionou o tema à política nacional.
Ruas afirmou considerar importante discutir maior tempo de descanso para os trabalhadores, mas argumentou que uma eventual mudança não poderia simplesmente transferir todo o custo aos empresários.
Ele defendeu redução da carga tributária como parte de uma possível solução.
O confronto mostrou como questões nacionais também atravessam a campanha estadual e são utilizadas pelos candidatos para marcar diferenças ideológicas.
Saneamento aproxima Siri e Garotinho
Nem todos os momentos foram de confronto.
Na discussão sobre saneamento, William Siri defendeu a reestatização da Cedae e criticou o modelo de concessão dos serviços.
Garotinho manifestou concordância com a proposta e também defendeu medidas para rever contratos e reduzir custos para a população.
O episódio foi uma das raras situações em que candidatos de campos políticos distintos encontraram um ponto de convergência durante o debate.
Interior do estado ganha bloco específico
O formato do encontro também abriu espaço para questões regionais.
Os candidatos discutiram problemas do Médio Paraíba, Costa Verde, Região Serrana, Baixadas Litorâneas e Centro-Sul Fluminense, entre outras áreas.
No Médio Paraíba, apareceram propostas envolvendo incentivos fiscais, qualificação profissional e fortalecimento do polo industrial.
Na Costa Verde, turismo, segurança e saúde foram alguns dos temas abordados.
Siri defendeu turismo sustentável e investimentos públicos, enquanto Ruas falou sobre estruturas regionais de saúde.
No debate sobre o Centro-Sul Fluminense, educação profissionalizante e valorização dos servidores estaduais apareceram entre as prioridades.
As discussões regionais foram importantes porque obrigaram os candidatos a deixar, ainda que temporariamente, os problemas da capital e da Região Metropolitana para tratar das demandas do interior.
Transporte continua sendo desafio histórico
Mobilidade e transporte público também tiveram destaque.
Além da Linha 3 do metrô, os candidatos discutiram estradas, concessões, pedágios e integração do transporte metropolitano.
Marinho criticou decisões adotadas por Paes na Prefeitura do Rio e defendeu mudanças no modelo de concessões.
Garotinho utilizou sua passagem pelo governo estadual para destacar projetos realizados durante sua administração.
Já Ruas procurou explorar o fato de ser de São Gonçalo para enfatizar as dificuldades enfrentadas diariamente pelos moradores que precisam atravessar a Região Metropolitana para trabalhar.
Garotinho participa em meio a disputa judicial
A participação de Anthony Garotinho ocorreu em meio a uma situação jurídica que também movimenta a campanha.
Horas antes do debate, o Tribunal Regional Eleitoral do Rio de Janeiro manteve o indeferimento de seu registro de candidatura.
Garotinho afirmou que recorrerá da decisão e utilizou o debate para reafirmar que continua candidato enquanto a discussão judicial prossegue.
Marinho consegue participar após decisão do TSE
A presença de André Marinho também teve componente judicial.
O candidato do Novo participou após decisão do ministro Nunes Marques, do Tribunal Superior Eleitoral, relacionada à participação da legenda nos debates.
Com isso, o encontro acabou reunindo cinco candidatos.
Alianças viram arma eleitoral
Mais do que apresentar propostas, os candidatos procuraram definir quem são seus adversários e a quais grupos políticos eles pertencem.
Paes buscou associar Ruas à continuidade do grupo que comandou o governo estadual.
Ruas tentou vincular Paes ao presidente Lula e à política tradicional.
Siri procurou apresentar uma alternativa pela esquerda e direcionou críticas tanto ao PL quanto às estruturas tradicionais de poder do estado.
Marinho adotou discurso crítico aos grupos que já administraram o Rio e tentou ocupar o espaço de renovação.
Garotinho, por outro lado, utilizou sua experiência como ex-governador para defender realizações de suas administrações e, simultaneamente, atacar os atuais grupos de poder.
Propostas disputam espaço com ataques
O debate deixou uma contradição evidente.
De um lado, os candidatos apresentaram propostas para problemas concretos: segurança, hospitais, transporte, saneamento, educação profissionalizante, turismo, geração de empregos e desenvolvimento regional.
Do outro, boa parte do tempo foi consumida por acusações sobre corrupção, alianças políticas e responsabilidades por problemas acumulados ao longo das últimas administrações.
Esse contraste acabou dando ao encontro um caráter fortemente político.
Para os candidatos que lideram a disputa, a estratégia pareceu ser evitar perder terreno na reta final. Para aqueles que tentam crescer, o debate representou uma das últimas oportunidades de alcançar um grande número de eleitores antes da votação.
Debate pode influenciar os últimos dias
Realizado a apenas cinco dias do primeiro turno, o encontro da Globo ocorreu em um momento decisivo.
Com pouco tempo restante para convencer os indecisos, qualquer desempenho positivo — ou erro — pode repercutir nas redes sociais, programas eleitorais e agendas de campanha.
Paes e Ruas deixaram o debate como protagonistas dos confrontos mais diretamente ligados à disputa pelo comando do Palácio Guanabara.
Garotinho buscou utilizar sua experiência administrativa e o discurso anticorrupção.
Siri tentou marcar posição pela esquerda e aproximar segurança pública de políticas sociais, direitos trabalhistas e serviços públicos.
Marinho apostou no discurso de renovação e na crítica aos grupos que historicamente ocuparam o poder no estado.
Segurança, corrupção e serviços públicos serão decisivos
Se o debate serviu como retrato da eleição fluminense, três grandes questões devem continuar dominando os últimos dias da campanha.
A primeira é a segurança pública e o desafio de enfrentar facções criminosas e milícias.
A segunda é a crise de confiança nas instituições estaduais, alimentada por sucessivos episódios de corrupção.
A terceira envolve os serviços que fazem parte do cotidiano da população: transporte, saúde, educação, saneamento e geração de empregos.
Na noite de terça-feira, os candidatos apresentaram caminhos diferentes para enfrentar esses problemas.
Agora, a decisão passa para o eleitor.
No próximo domingo, 4 de outubro, os fluminenses irão às urnas para escolher quem desejam colocar à frente do Governo do Estado do Rio de Janeiro pelos próximos quatro anos.

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